quarta-feira, julho 07, 2010

Klose, um cara família

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por Marcus Alves, da revista ESPN


São coisas difíceis de entender. No futebol tem muito disso, vocês sabem. Por que fulano não sai do time? O que sicrano está fazendo no banco? A todo o momento, nos perguntamos. Nunca estamos satisfeitos. Mas, sim, meus caros. Aos treinadores, também é reservado o direito de fazer apostas. Por mais que pensemos que não, essa é a mais pura verdade.

Chocante? Há quem ache que sim. Mas é dessa forma que as coisas funcionam. Não fosse assim, os técnicos não teriam pelo que responder. É preciso arriscar. Faz parte da função. É algo intrínseco.

Nem todos conseguem levar muito bem os questionamentos sobre suas decisões – nós sabemos bem disso. Joachim Löw, por exemplo, não é a pessoa mais fácil de lidar – os dirigentes da federação alemã podem atestar –, mas, até onde consta, em seu relacionamento com a imprensa, manteve sempre a postura. Jamais perdeu a linha com qualquer indagação que fosse.

Até aquele amistoso com a Bósnia. Vitória de 3 a 1. Jogo nota 6. Nada empolgante. Como sempre faz, ao fim da partida Löw se encaminhou para a coletiva. Rosto tranquilo, respondia pergunta a pergunta. Até que veio “a” pergunta. A pergunta que faria o técnico deixar de lado a serenidade que costuma acompanhá-lo.

“Podemos dizer que o Klose pertence agora apenas à história da Nationalelf?”

Löw não gostou nada das palavras, se contorceu na cadeira, fez gestos, tentou explicar que em seu 4-2-3-1 não cabiam mudanças e, finalmente, sentenciou.

“O melhor de Miroslav Klose está por vir”.

Um homem à frente de seu tempo, não resta dúvida. Sabia do que seu atacante era capaz. O mesmo atacante que, em toda a temporada, marcou apenas três gols. Um cara que, em seu clube, é reserva do reserva. Pois é, esse mesmo. Klose era a tal aposta de Löw.

Foram muitas as sugestões antes da Copa. “Por que não trazer Kuranyi de volta?”. “E que tal uma formação mais dinâmica com Cacau e Gomez?”. O treinador não deu ouvidos a nada. Confiava em seu artilheiro. Ele não vinha bem. Andava cabisbaixo nos treinos. Era o único que havia jogado pouco em seu clube. As mesmas incertezas que o atormentavam aos 20 e poucos anos voltavam a perturbá-lo. Sentia-se mal.

Antes, a dúvida era se deixaria o emprego de carpinteiro para seguir no futebol. Não se achava suficientemente bom. Um sentimento que voltou a afligi-lo à beira do Mundial. Pensava que a sua hora talvez houvesse passado.

Löw mostrou que não. Fez um trabalho para recuperar o atacante. E colheu os frutos com isso. Já são quatro gols na África do Sul. Está a um de chegar à sua meta e se igualar Ronaldo como o maior artilheiro de todos os tempos em Copas. Klose é um cara modesto. Não quer que o Fenômeno, tão simpático com ele em 2002, fique chateado com o feito. Mas, acima de tudo, um cara família. Mostra isso a cada gol ao erguer três dedos, que representam a esposa e os dois filhos. Os românticos discordam, mas ele merece tudo que pode conquistar neste Mundial.

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