quinta-feira, julho 15, 2010

"Jogar é fácil. O difícil é voltar a conversar", afirma Ricardinho

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por Vanessa Ruiz, da revista ESPN


Nome no diminutivo geralmente é apelido carinhoso, uma referência exclusiva para amigos próximos e familiares. Não para Ricardinho. Se quiser se aproximar, chame-o apenas de Ricardo. Ricardinho é uma marca, é para os jornais, para o público. A divisão beira a esquizofrenia, mas é uma forma de não deixar entrar em casa o que de ruim acontece na rua. Uma proteção do inferno em que se transformou a vida da família Garcia a partir do dia 21 de julho de 2007, quando um dos maiores levantadores da história do vôlei foi cortado do Pan do Rio.

O episódio impôs um novo início à história do jogador. Contar sua trajetória e listar os prêmios deixaram de ser temas tão prioritários quanto outro assunto: seu exílio da seleção brasileira por três anos, prestes a ser encerrado no Mundial da Itália, em outubro. Ricardinho era o capitão e símbolo da nova geração de ouro e havia acabado de ser eleito o melhor jogador de uma Liga Mundial da qual o Brasil saíra campeão pela quinta vez seguida, sempre com ele no grupo. Ao se reapresentar no fim de semana seguinte, já no Rio, foi chamado para uma reunião com Bernardinho e alguns membros da comissão técnica. Ali, foi avisado de que não disputaria o Pan.

Após seis temporadas na Itália divididas entre Modena e Treviso, o levantador voltou: defenderá o Vôlei Futuro, de Araçatuba. Quando a revista ESPN pediu para ir até sua casa em Maringá, no Norte do Paraná, ele prontamente aceitou. Tomamos um susto. Ricardinho disposto a conversar? Foram quase três anos sem dar grandes entrevistas, apenas declarações esparsas – a deturpação de boa parte delas, aliás, foi o que afastou o levantador da imprensa brasileira segundo Fabiane, a esposa 100% presente. Ela acompanhou quase toda a conversa e participou dela, acrescentando detalhes que fazem toda a diferença quando se trata de entender como foi a vida do marido neste meio-tempo, a começar pela reação intempestiva ao corte.

Em uma tarde de bate-papo, o casal contou tudo, mas esbarrou num ponto: até hoje, Ricardinho diz não saber o porquê do afastamento. No final das contas, ele parece entender que as coisas só ficaram desse jeito por uma falha sua, por ter se fechado, por não ter falado com sequer um integrante da Seleção depois da fatídica reunião.

Logo após o corte, ao olhar para trás, você não identificou nenhum sinal de que isso estava para acontecer?

Fabiane » Eu já fiz essa pergunta para ele. Durante muito tempo, aliás.

Não, você fica sem saber, se fazendo perguntas, faz um retrospecto de tudo que aconteceu. Uma hora, cheguei à seguinte conclusão: eu não tenho de ficar pensando, foi uma opção, foi uma decisão do Bernardo. E a gente vê agora que não foi tão sério porque ele voltou a me chamar. É por isso que fico contente, porque acabou, finalmente.

Na época, você dizia que só voltaria para a Seleção se o Bernardinho explicasse publicamente o motivo do corte, da mesma forma que o corte foi anunciado publicamente.

Fabiane » Que bobeira que ele falou, né? Depois de três anos é que a gente vê...

Era realmente uma coisa que eu queria saber. Hoje, não preciso mais.

Não acha importante descobrir o que aconteceu até para que não se repita?

No primeiro ano, era o que eu queria, agora não. Foi muito desgastante para a minha família, para a minha filha mais velha na escola. Não quero cutucar muito. Pensei em tudo o que você possa imaginar, de manhã, de tarde, à noite, o porquê do que tinha acontecido. Cheguei à conclusão de que não tem por quê.

Não teve discussão nenhuma durante a Liga Mundial daquele ano?

Não, não teve. Eu tinha acabado de ganhar o prêmio de melhor do mundo. Depois de três, quatro dias de folga, no Rio, ele me chamou para conversar e me cortou. Puxei minha cadeira, levantei e saí.

Saiu da reunião sem dizer nada?

Não abri a boca. Puxei a cadeira e saí. Naquele momento, eu achava que o grupo tinha de ter reagido de outra forma, que não poderia ter deixado estourar da forma que foi, nem deixar a informação sair do hotel daquele jeito. O que eles falaram foi que ficaram putos quando eu dei aquela coletiva [Ricardinho chorou durante a entrevista e acusou os integrantes da Seleção de traição].

Houve muita especulação desde então. Falaram que seu comportamento dentro do grupo não era o ideal, que você cometia grosserias com companheiros, pessoas da comissão técnica.

Eram discussões normais, de vestiário, durante a semana, durante os treinamentos, durante as negociações de folga.

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