domingo, fevereiro 21, 2010

Nos tempos de guarda de trânsito mirim

Ediglê ficava em frente aos colégios, em Fortaleza, ajudando os estudantes a atravessarem a rua

A série "Antes da Bola", que conta a trajetória dos jogadores profissionais dos clubes pernambucanos antes de eles alcançarem o estrelato, volta neste mês de fevereiro com Ediglê, zagueiro recentemente contratado pelo Náutico, que deve fazer a sua estréia pelo Alvirrubro nas próximas rodadas do Campeonato Pernambucano. O jogador já está bem fisicamente, faltando aprimorar alguns detalhes na parte técnica.

Cearense de Caucaia, município próximo de Fortaleza (apenas 16 quilômetros separam as duas cidades ), Ediglê passou boa parte da juventude fazendo a ponte entre as cidades, seja para participar dos seus primeiros treinamentos no futebol ou para trabalhar. "Sou de família humilde, a vida é sempre aquela luta", começa o jogador, que atendeu à reportagem da Folha de forma muito simpática, após o treinamento da última sexta-feira.

Bastaram alguns minutos de conversa para o zagueiro alvirrubro comentar sobre a sua primeira - e mais inusitada - profissão. "Já fui guarda de trânsito mirim. Todo organizado, de uniforme completo. Eu tinha por volta de 14 anos e ajudava no trânsito na frente de um colégio, de uma forma educativa. Parava os carros para que os alunos pudessem atravessar a rua", conta.

Um adolescente de 14 anos, trabalhando uniformizado em frente a um colégio repleto de jovens, é a ilustração da palavra desconforto. Só é possível rir da situação depois que os pequenos traumas já foram superados. Os amigos provocavam. "Era meio constrangedor. Mas agora lembro disso com um sorriso no rosto, pois tudo fez parte do meu amadurecimento", diz. "Ninguém perdoava, para os amigos era mais um motivo para implicar. Eles iam me fazer visitas, só para brincar".

Encostado no alambrado do CT Wilson Campos, tentando descansar após o treinamento, buscando um pouco de ar no implacável calor pernambucano, Ediglê relembra os outros trabalhos que realizou durante a juventude. Já serviu pizzas no restaurante de um amigo. No mesmo local, ajudava a fritar pastéis. "Na juventude, pensei em ser policial. O trabalho como guarda de trânsito era um espécie de estágio, você fazia contatos, quando completasse 18 anos tinha chance de conseguir o emprego. Mas graças a Deus acabei indo parar no mundo do futebol, que permitiu ter experiências de vida maravilhosas", comenta o zagueiro.

Quando estava em Yokohama, no Japão, em 2006, com o grupo do Internacional que conquistou o título mundial daquele ano, diante do Barcelona, Ediglê praticamente assistiu ao filme da sua vida. "Você pensa na saída dos tempos na categoria de base. Eu ganhava dois vales transportes, mais tinha que pegar dois ônibus na ida, e dois na volta. Tinha que ficar me humilhando, pedindo carona ou entrando escondido na parte de trás do transporte. Mas naquele momento, vi que tudo valeu a pena. Tive que superar os obstáculos para fazer por merecer".

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